segunda-feira, 9 de maio de 2016

Em dez anos, a queda e o ressurgimento coral


Fotografia de Anderson Stevens / Folha PE

EM DEZ ANOS, A QUEDA E O RESSURGIMENTO CORAL

William Tavares

É quase um consenso popular dizer que, nos momentos de maior alegria, algumas decepções do passado também são relembradas. Não significa, porém, que essas amarguras venham sobrepujar a alegria do presente. O misto de sentimentos prova que, na vida, as reviravoltas estão sempre passíveis de acontecer. O ciclo do futebol tem um pouco disso. Para ressurgir, é preciso morrer, ainda que ambos os termos sejam de forma figurada. O Santa Cruz aprendeu esse lema da forma mais cruel. Um calvário que começou provocado pelo mesmo rival que, ontem, padeceu diante de um clube cada vez mais impávido. Há 10 anos, era o Sport quem comemorava o título do Campeonato Pernambucano, enquanto o Santa iniciava uma trajetória descendente que culminou no jejum de cinco anos sem títulos, além do rebaixamento até a Série D. Hoje, a história sorriu ao Mais Querido, justamente no seu momento de maior crescimento na década. Pernambuco está cada vez mais Tricolor.
Na final do Pernambucano de 2006, assim como neste ano, o jogo decisivo foi na Ilha do Retiro. O Sport fora o vencedor na partida de ida, no Arruda, por 2x1. Na volta, o Santa Cruz precisava de uma vitória para levar o confronto para as penalidades. E ela veio daquele jeito que os cardíacos mais detestam. Aos 46 minutos do segundo tempo, Lecheva cobrou escanteio, Neto desviou de leve e a bola ainda tocou em Marcos Tamandaré antes de morrer no fundo gol. Pela segunda vez na história do Estadual, o título seria decidido nos pênaltis - a primeira foi em 1983, entre Santa e Náutico, com o Tricolor levando a melhor.
Quis o destino que os dois jogadores que foram os heróis do Santa nos 90 minutos, Lecheva e Neto, fossem justamente os vilões nos tiros livres. Lecheva, inclusive, teve nos seus pés a chance de carimbar o título coral, mas desperdiçou. Melhor para o goleiro Gustavo, destaque na conquista leonina.
A história que vem a seguir os torcedores do Santa já conhecem de cor e salteado: três rebaixamentos seguidos, meia década sem títulos e risco até de fechar as portas. Há quem diga que aquela disputa de pênaltis foi o início do carma coral. Se a história fosse diferente, talvez o Mais Querido não tivesse passado por todo esse martírio.
Assim como um estudante que vacilou na prova final, o Santa precisou ser reprovado para voltar ao caminho certo dos estudos. Dez anos depois, e enfatizando bastante os últimos cinco, o Santa colecionou taças (cinco estaduais, um regional, um nacional e três acessos). Mais do que ser campeão, o clube recobrou a consciência administrativa, com gestões de maior sucesso, projetando ainda mais crescimento no futuro. Tem "passado com média alta" nos testes iniciais desta década. Vai ser difícil encontrar algum torcedor coral que tenha carinho por Lecheva, mas a verdade é que foi preciso o Tricolor chegar ao fundo do poço para se reerguer. Coisas da vida. Coisas do futebol.

Fonte: Folha de Pernambuco, Recife, 09/5/2016

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