quinta-feira, 19 de maio de 2016

1969: Birunga, nego bom do Arruda


1969: BIRUNGA, NEGO-BOM DO ARRUDA

Paulo Julião


Birunga, o nego-bom do Arruda, além de ser um craque de futebol, é um rapaz educado, simples e querido por todos os demais companheiros. Nenhum atleta, no Santa Cruz, é mais bem visto pela diretoria, pela direção técnica e pela própria torcida. Para ele, nada está ruim; está de acordo com todos e não se zanga com as brincadeiras que às vezes é alvo por parte dos colegas de clube.
Fiscalizando a reforma da sua casinha, que de taipa está se transformando em alvenaria, ele confessa, simplesmente, sua maior ambição: fazer um pé-de-meia. Esse pé-de-meia talvez não demora a ser concretizado, porque o meninão que joga de beque central do tricolor do Arruda tem futebol demais para consegui-lo.
A mercê de uma melhor experiência, Birunga precisa de uma mudança de clube. O Santa Cruz, atualmente, não lhe oferece condições de maior projeção, quer em função de suas poucas disponibilidades quer por desarranjos de outras peças vizinhas, sobrecarregando-lhe as funções dentro do gramado.
Um atleta radicado no Sul do País, em férias no Recife, o julgamento imparcial da imprensa, deverão, de uma hora para outra, transportar Birunga para um lugar de destaque no futebol brasileiro, longe de qualquer favor. Minuca, do Palmeiras, recentemente nos confessava: “O neguinho vai longe. Ele tem condições se atuar nas melhores equipes do Brasil. É questão apenas de uma melhor lapidação”.
O técnico Gradim não esconde sua admiração pelo atleta, fazendo as mesmas alusões quanto às suas qualidades técnicas. Afirma o técnico tricolor que sua maneira de se conduzir, cumprindo rigorosamente as obrigações de profissional, é outro fator de importância para um futuro brilhante na carreira esportiva.
Birunga é um exemplo de jogador. Nenhum treinador terá a mínima preocupação com ele, no que se diz respeito a disciplina e ao cumprimento de suas obrigações. Acredito muito no seu futebol e vejo nele condições de atuar nas equipes do Sul. O rapaz precisa, na verdade, de mais cancha, mas isto virá, como é normal, com a continuidade.
Em fins de 68, uma greve dos jogadores do Santa Cruz tomava forma, com jogadores de braços cruzados, reclamando, com justiça, a falta de pagamento dos salários. Ninguém iria à campo para treinar se não houvesse uma tomada de posição imediata da diretoria tricolor. Birunga, numa prova de fidelidade aos companheiros também se encontrava apenas de calção, aguardando uma solução. Calado, num canto e noutro, o nego bom apenas e simplesmente ouvia tudo e quando finalmente foi resolvido o impasse ele sorriu de contentamento: “Boa! Agora sim! O negócio é união. Esta é nossa casa e o nosso ganha pão. Vamos trabalhar para ganhar o Nordestão!”.
Quando os marujos do Iate Real da Rainha Elizabeth estiveram realizando um treino com um misto do Santa Cruz, os colegas de Birunga, à título de brincadeira, quiseram-no fazer de intérprete juntos aos ingleses e, ele sem se acabrunhar limitava-se a driblar e chamar os adversário de “galegos engraçados”.
Assim é o zagueiro central do Santa Cruz, retrato fiel de honestidade e dedicação ao seu trabalho. Quando veste a camisa tricolor e vai para campo disputar mais uma peleja, esquece que seu clube é pobre, que ainda não lhe pagou integralmente suas últimas luvas. Quer saber que está alipara trabalhar e que precisa estar sempre em forma, aguardando uma oportunidade melhor de conseguir seu pé-de-meia.
Antes de 68 desaparecer do calendário, Birunga compareceu ao Diario da Noite para agradecer a inclusão do seu nome na seleção do ano e desejar muitas felicidades à torcida tricolor. Somente seu futebol fez com que o escolhéssemos por unanimidade e ele ficou ciente disso, prometendo lutar muito mais este ano, em busca de glórias para o Santa Cruz.

Fonte: Diario da Noite, Recife, 05/01/1969

Nenhum comentário: