sábado, 30 de abril de 2016

Santa Cruz: do início vacilante ao voo na reta final


Fotografia de André Nery / JC Imagem

SANTA CRUZ: DO INÍCIO VACILANTE AO VOO NA RETA FINAL

Wladmir Paulino

O desempenho do Santa Cruz pode ser comparado com um automóvel que tem uma pequena sujeira na injeção eletrônica que impede seu motor desenvolver a velocidade plena. Mas quando consegue limpar torna-se inalcançável. De uma vaga conquistada aos trancos e barrancos e nos critérios de desempate à invencibilidade no mata-mata o time passou por todas as fases: favoritismo no início, sofrimento no meio e redenção no fim.
Os corais estavam no grupo C, que tinha como adversário mais duro, ao menos em tese, o Bahia. E isso se concretizou logo na primeira rodada. O goleiro Marcelo Lomba teve grande atuação, garantindo os três pontos depois do gol de Juninho. A primeira vitória veio longe de casa, contra o Confiança, com gols de Grafite e Alemão.
Parecia que o time iria engrenar. Só parecia. Na volta para casa, novo balde de água fria na torcida com um insosso empate por 1×1 com o frágil Juazeirense. Esse jogo indicaria uma tendência nessa primeira fase do Estadual, que encontraria eco no Pernambucano: o time se complicaria quando jogasse em casa. O jogo em sequência, contra o Juazeirense de novo, confirmou esse ‘problema’. O time foi a Senhor do Bomfim e venceu o mesmo adversário por 1×0.
A primeira vitória em casa só veio na penúltima rodada, com um 3×1 em cima do Confiança, com gols de Tiago Costa, Keno e Bruno Moraes. Mesmo assim, a torcida já chiava e não era pouco com o técnico Marcelo Martelotte. O Tricolor mantivera a base vice-campeã da Série B, mas o futebol ficou perdido em algum lugar do passado. O time não tinha força para atacar e dava muito espaço na hora de defender.
Isso chegou ao ápice na última rodada da primeira fase quando teria novamente o Bahia pela frente. Classificado antecipadamente e com cem por cento de aproveitamento, o Tricolor de Aço deu-se ao luxo de escalar um time repleto de garotos recém-promovidos das divisões de base. Os corais brigavam com outras quatro equipes para entrar nas quartas de final como um dos três melhores segundos colocados. Um time emperrado e experiente conseguiu perder para a meninada baiana. No retorno ao Recife, Martelotte foi demitido.

MATA-MATA

Milton Mendes, com bons trabalhos na Ferroviária de Araraquara e Atlético Paranaense, foi o escolhido. E ‘estreou’ com o pé direito. Na abertura das quartas de final contra o Ceará ele estava nas tribunas vendo o time jogar comandado por Adriano Teixeira. No intervalo, com a equipe no prejuízo por 1×0, foi ao vestiário, conversou com os jogadores, deu algumas orientações e a virada veio na segunda etapa com dois gols de Keno.
No jogo da volta o Tricolor sofreu um bombardeio do atual campeão. Teve direito a Danny Morais salvando em cima da linha e Tiago Cardoso defendendo um pênalti, feito que ele não alcançava desde o dia 6 de setembro de 2014. No final do jogo, Wallyson escapou num contra-ataque e fez 1×0. Começava ali a melhor campanha do mata-mata.
A semifinal era a chance de dar o troco ao Bahia. Mas as coisas começaram bem diferentes. O time visitante marcou a saída de bola e tocou a bola no campo ofensivo até marcar o gol aos 19 minutos com Hernane Brocador. Só aí o Santa saiu para o jogo, comandado pelo inspiradíssimo Keno. E foi dele o empate já no último minuto do primeiro tempo depois de passar por três marcadores. A virada coral veio aos 12, com direito a Grafite driblar Marcelo Lomba. Parecia que o filme das quartas de final iria se repetir. Mas só parecia. Aos 38 do segundo tempo, em sua segunda participação no jogo, Wellington Cézar meteu a mão na bola dentro da área. Luisinho foi para a cobrança e deixou tudo igual.
Com o 2×2 o Bahia poderia empatar por 0x0 e 1×1 para ir à final. A Fonte Nova viu o jogo mais tenso da competição com jogadores dos dois times trocando empurrões e cometendo faltas ríspidas. Nesse nervosismo, o zagueiro Róbson falhou numa saída de bola. Melhor para Grafite que avançou e fez 1×0 ainda na primeira etapa. Depois foi se segurar para grantir a final inédita.

DECISÃO

Depois de despachar o dono da melhor campanha, o Santa teria pela frente justamente o segundo melhor. E com um bônus. O Campinense se especializava em mandar pernambucanos de volta para casa. Só o Salgueiro perdeu três vezes para a Raposa. Nas semifinais, a vítima foi o Sport. E como todo mundo esperava o jogo foi duríssimo, ainda que nacionalmente haja um abismo entre os dois – o Santa está na Série A e o time paraibano na B.
O Campinense não se intimidou e jogou de igual para igual. Mesmo com essa dificuldade, Grafite estava lá para fazer a diferença ainda no primeiro tempo. O panorama seguiu igual no segundo e quase no mesmo lugar do gol tricolor, o time visitante empatou com Tiago Sala. Sem outra alternativa a não ser atacar, Milton Mendes mandou o time para cima deixando apenas um volante protegendo a defesa. E foi recompensado com um chute de primeira de Bruno Moraes aos 46 do segundo tempo. Era a vantagem que o Tricolor precisava para escrever um feliz capítulo final desta história.

Fonte: Jornal do Commercio, Recife, 30/4/2016

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