segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sebastião Virada, o craque negro coral


Tricampeões em 1933: João Martins, Zezé Fernandes, Sebastião Virada, Tará, Estevão, Diógenes e Lauro

SEBASTIÃO VIRADA, O CRAQUE NEGRO CORAL

Marcos Velloso

No início do século 20, o preconceito racial ainda persistia forte, apesar da abolição da escravatura, em 1888. Mesmo com alguns movimentos negro explodindo pelo País, o futebol era um retrato da discriminação. O esporte mais popular do mundo, em especial, era declaradamente racista, a ponto do então presidente da República Epitácio Pessoa, formado na Faculdade de Direito do Recife, recomendar que não se incluíssem mulatos na Seleção Brasileira que disputaria o Campeonato Sul-Americano de 1921, em Buenos Aires. Ignorando o fato de o esporte ser praticado pela elite branca, o Santa Cruz Futebol Clube, já ao nascer, em 1914, quebrou paradigmas.
Teófilo Batista de Carvalho, o Lacraia, foi um dos fundadores do Mais Querido, idealizador do escudo do Santa e principal fator para que a cobra-coral ganhasse adeptos de cor negra. Sebastião Virada seria o primeiro ídolo negro da massa antes mesmo da profissionalização do futebol na década de 1930. Para se ter uma ideia da ousadia e nobreza do tricolor, o rival Náutico só veio contratar um profissional negro em 1960, sendo o renomado técnico Gentil Cardoso, campeão pelo Santa 1959, enquanto o Grêmio de Porto Alegre proibia, nos anos 50, negros de vestir a camisa do time.
Sebastião Virada foi descoberto em 1925 por Ilo Just, outro grande nome da história coral, ex-goleiro, técnico e diretor de esportes. O center-half defendia o Beza, um time formado por gazeteiros, num jogo contra o Íris, onde Ilo era goleiro. Vale lembrar que na época o Íris não integrava a primeira divisão e, por isso, Ilo jogava tanto pelo Santa como pelo time suburbano. Dessa partida surgiu o convite para Sebastião treinar no Mais Querido. De acordo com um livro comemorativo dos 55 anos do Santa Cruz, o diálogo entre os dois teria acontecido da seguinte maneira:
-Gostei de ver você jogar, Sebastião. Quer ir para o Santa Cruz, eu lhe levo.
-Lá não há lugar para mim.
-Estamos precisando de um center-half.
-Lá fazem questão de cor e eu sou preto.
-Esse negócio de cor não existe lá. O que o clube quer saber é da educação da pessoa.
E assim, ressabiado com um possível preconceito racial, Sebastião chegou ao Santa.
Em setembro de 1926, em partida amistosa, nos Aflitos, o Santa enfrentava o Ypiranga, time tradicional da Bahia e campeão do seu estado um ano antes. Esse jogo ficou marcado porque a partir dele a expressão "virada" é incorporada ao nome Sebastião. Ele foi o responsável pela vitória coral por 1 x 0, num sensacional gol de "virada". No lance, Joaquim Português, do Santa, chutou mal, pegando Sebastião de surpresa que voltava para o meio de campo. Num rápido giro e um forte chute de esquerda ele definiu o placar do amistoso. A torcida logo o apelidou de Sebastião Virada. Esse triunfo sobre a equipe baiana foi um dos mais importantes nos primeiros anos de vida do Santa Cruz, ao lado da vitória diante do Botafogo, em 1919. As vitórias contra os baianos eram muito festejadas.
Em 1930, uma notícia deixou a todos perplexos. Não me refiro à Revolução (ou golpe) de 1930, liderada por Getúlio Vargas e que pôs fim à República Velha, a da política café (SP) com leite (MG), e sim a saída de Sebastião do Santa. Ele foi convidado pelo Encruzilhada, um clube novo no Pernambucano e que estava apenas na sua segunda participação no estadual. A transferência foi muito badalada por que ele recebeu um conto de réis, maior valor ganho por Virada como jogador. Na época, a estrela negra tricolor trabalhava como pedreiro. Seu time terminou na terceira posição no Pernambuco-30. No ano seguinte, em 1931, ele continuou no clube do bairro vizinho ao Arruda e, por isso, não participou do primeiro título Pernambucano do Santa Cruz. Entretanto, Sebastião retornou ao tricolor a tempo de conquistar os títulos posteriores.
No campeonato estadual-1932, a Federação decidiu inovar no sistema de disputa, tal como no Pernambucano deste ano, um desastre de organização. Os onze clubes foram divididos em dois grupos, conhecidos por séries azul e branca. Enfrentando-se apenas dentro de suas chaves, os campeões de cada grupo se encontravam na melhor-de-três que decidiria o campeonato. O Santa venceu a série branca e o Íris, levando a melhor sobre Náutico e Sport, conquistou a série azul. Nas finais, foram duas vitórias tricolores por fáceis 4x1. No segundo jogo da decisão, o Diario da Manha considerou que o Santa Cruz fez muitas faltas, sendo Sebastião o mais violento. Curiosamente, de acordo com o próprio jornal, o Mais Querido cometeu sete infrações, número baixíssimo para os padrões atuais do futebol brasileiro.
Sob o comando do diretor técnico Ilo Just, o bicampeonato foi conquistado de maneira brilhante, afinal, o Santa venceu todos os seus doze jogos, 100% de aproveitamento. Melhor ataque da competição, com 51 gols - média de 4,25 gols por partida -, defesa menos vazada, 13 vezes, e, possivelmente, o artilheiro do estadual - Lauro com 14 gols (a precariedade de registros impede a afirmação nesse quesito). Em mais da metade dos confrontos, o clube do povo venceu goleando os adversários: 8 x 0 no Israelita, 5 x 1 no Great Western, 4 x 1 no América, 6 x 1 e 8 x 2 no Fluminense do Recife, além dos 4 x 1 (duas vezes) na decisão do campeonato contra o Íris.
Não menos sensacional foi a conquista do primeiro tricampeonato da história tricolor - 13 vitórias, dois empates e uma derrota. No Pernambucano-1933, a Federação manteve o regulamento que dividia os clubes em dois grupos e cruzava o campeão de cada chave, mas, dessa vez, separou os grandes dos suburbanos. Em outras palavras, quem vencesse a série azul, chave de Santa, Sport, Náutico e América, praticamente ficaria com a taça do estadual. E foi o que aconteceu. A cobra-coral liderava o seu grupo até a penúltima rodada, quando foi derrotada pelo Náutico (1x0). O Sport, por outro lado, venceu e assumiu a ponta justamente faltando um jogo. Para azar do rubro-negro, seu adversário seria o Santa Cruz na última rodada.
O Diario de Pernambuco destacava a defesa tricolor: "Diógenes, Martins e Sherlock formam uma grande potência pela colocação e destreza nas suas jogadas. Zezé Fernandes, Sebastião e Marcionilo são médios admiráveis e fortes que defendem magnificamente e distribuem com uma felicidade desconcertante." Domingão, dia da decisão do campeonato, como os próprios jornais consideravam, a Avenida Malaquias, campo do rival, superlotada (8.000 pessoas) e o Sport levando a vantagem do empate. Para piorar, o leão larga na frente, mas, através de Limoeiro vem o empate do Santa. No 2° tempo, Tará deu a vitória ao Terror do Nordeste ao marcar duas vezes. Zezé Fernandes, no entanto, resolveu debochar dos jogadores do Sport e sentou na bola, o que resultou numa falta que originou o segundo gol do adversário, inútil por que não havia mais tempo para nada. Com o triunfo por 3 x 2, o Santa Cruz enfrentou o Varzeano na decisão, de fato, do campeonato. Comandado pelo treinador Júlio Fernandes, o clube conquistou o tri ao vencer o time suburbano duas vezes por 5 x 2.
Virada esteve em 23, dos 28 jogos - um deles o Santa venceu por WO -, que o tricolor disputou nos campeonatos de 32 e 33. Com ele, foram 20 vitórias, dois empates e uma derrota. Outros jogadores mereceram destaque: Diógenes (bicampeão), Sherlock (capitão e tri), Zezé Fernandes (tri), Tará (tri), Lauro (tri e artilheiro do Santa com 32 gols nos três estaduais), Limoeiro (campeão) e Walfrido (tri). No tricampeonato (1931-32-33), a equipe venceu 33, empatou três e perdeu apenas duas vezes. Foram 162 gols a favor e 46 contra, gerando um saldo positivo de 80 e uma média de 3,3 gols por partida.
O ano seguinte ao tricampeonato também pode ser considerado um ano glorioso, apesar da derrota para o Náutico na final do estadual por 2 x 1. Em 1934, duas vitórias entraram para sempre na história do Santa Cruz. Em 15 de agosto, na Av. Malaquias, Sport e Santa Cruz escreviam mais um capítulo da rivalidade dos Clássico das Multidões. Na liderança, o arqui-inimigo coral vinha de um empate diante do Náutico, enquanto o tricolor, segundo colocado, havia sido derrotado pelo Íris (1 x 0). O jogo era muito aguardado pelas duas torcidas que lotaram as arquibancadas da Av. Malaquias. Brilhantemente, o Santa estabeleceu a maior goleada do confronto, 7 x 0!!! 4 x 0 só no 1° tempo. Lauro (2), Tará (2), Carlos, Limoeiro e Estevão - esse não iniciou o jogo, mas substituiu algum jogador não identificado - marcaram os gols. "Sebastião foi um eixo eficiente e seguro" do time. Pelo lado rubro-negro, Diógenes, ex-Santa, decepcionou. Dadá, Marcionilo e João Martins; Zezé Fernandes, Sebastião e Ernani; Walfrido, Limoeiro, Tará, Lauro e Carlos foram os titulares dessa memorável partida.
A segunda vitória inesquecível aconteceu em outubro. O Santa Cruz venceu a Seleção Brasileira, que excursionava pelo País após a Copa na Itália. O time do gênio Leônidas da Silva não foi páreo e saiu derrotado por 3 x 2 - gols de Zezé (2) e Sidinho para o Mais Querido, e Patesko e Waldemar de Brito pelo Brasil. Machucado, Sebastião deu lugar a Furlan. O ídolo negro havia de partipado do primeiro jogo entre as duas equipes onze dias antes, quando a Seleção fez 3 x 1. Apenas três clubes no mundo foram capazes de vencer o escrete canarinho até hoje - Flamengo, Atlético-MG e o Santinha, claro.
O ídolo negro encerrou a carreira de maneira precoce. Seu último campeonato pelo Santa Cruz foi o de 1934. Sebastião pendurou as chuteiras mais cedo, aos 33 anos, porque ele não quis se submeter a uma cirurgia no menisco. Com medo de sofrer as consequências de uma operação mal feita, situação que acontecia com certa freqüência na época, o zagueiro preferiu abandonar o futebol. "Os médicos do clube cuidavam do atleta, porém, na maioria das vezes as contusões e os problemas de saúde eram cuidados pelo próprio jogador", disse Virada ao DP.
Da época em que se jogava por amor ao esporte, Virada tinha seu apelido ecoado pelos estádios do Recife. Disciplinado, raçudo e pobre, o negro Sebastião é o símbolo batalhador e persistente do Santa Cruz. Assim como aconteceu com Lacraia, Sebastião Virada representou o talento e a imagem dos excluídos por causa da cor da pele. No clube do povo, ele se tornou o primeiro ídolo negro.
"O jogador trabalhava a semana inteira. No sábado ainda ficava acordado até meia-noite. No domingo, pela manhã, batia bola para jogar oficialmente à tarde. Geralmente, o jogador quando entrava no time recebia a promessa de que arranjaria emprego. Enquanto estivesse desempregado recebia gratificações pelas vitórias."

Sebastião Virada falando sobre o tempo do amadorismo ao Diario de Pernambuco, em 1970.
Fonte: Blog Ídolos do Santa

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