domingo, 20 de dezembro de 2015

O reencontro


Fotografia de Antônio Melcop

O REENCONTRO

"Eu avisei, falei para vocês: tem que marcar esse aí!". Esta foi uma frase dita pelo tricampeão mundial Rivelino, que defendia o Fluminense em 1975. Naquela temporada, o Santa Cruz alcançou a semifinal do Campeonato Brasileiro e tinha vários craques em seu elenco. Givanildo Oliveira, Fumanchu, Ramón, Lula Pereira... mas o pedido de Rivelino, aos colegas de equipe, visava o meio-campista Mazinho, conhecido no Tricolor como Deus de Ébano. Conhecido também por ser um atleta dono de uma qualidade técnica invejável, que o transformou em um dos melhores jogadores da história do clube.
"Você vê o Rivelino falar um negócio desses... traz uma afirmação. O Santa Cruz me marcou muito. Pela alegria, pela campanha de 1975, pela ajuda que demos para construir a história do clube. Mas também pela tristeza de ter, praticamente, encerrado minha carreira aqui, por conta de uma lesão no joelho. Estava prestes a ir para a Seleção Brasileira em um dia e, no outro, quase não conseguia andar", relembra Mazinho.
Em sua saga no Santa Cruz, Mazinho não esteve sozinho. Em 1975, o ponta-esquerda Pio era uma peça fundamental na equipe coral. Tanto na parte defensiva, como na criação de jogadas. "Eu digo que fiz poucos gols naquela campanha de 75. Uns três ou quatro. Mas só fiz gol importante. Me lembro bastante da partida contra o Palmeiras, em que ganhamos por 3x2, quando fiz um gol de falta aos 45 do segundo tempo. Contra o Internacional, no Arruda, a história foi parecida. São boas mémorias", recorda Pio.
Residentes de Araraquara/SP, Mazinho e Pio estão de volta ao Estado de Pernambuco após quase quarenta anos. Eles retornam ao Arruda para prestigiar um evento organizado por outros dois craques, Luciano Veloso e Ramón. A 15ª Festa dos Boleiros acontece neste sábado, na sede social do clube tricolor. Quem acompanha os ex-atletas nesta jornada é o também ponta-esquerda Joãozinho, que passou pelo Santa nos anos de 1977 até 1980.
Mazinho, Pio e Joãozinho tiveram a oportunidade de atuar em grandes clubes do futebol brasileiro. Alcançaram feitos invejáveis para o histórico de qualquer atleta profissional. No entanto, eles reservam para o Santa Cruz um espaço entre os times mais queridos, talvez o maior deles, em suas carreiras.
Estes três atletas, junto de tantos outros, marcaram história no Mais Querido. Os depoimentos acima são apenas trechos de uma entrevista com quase duas horas de duração, composta por declarações marcantes e emoção entre uma fala e outra. Confira, abaixo, os principais momentos desta conversa.
Mazinho Deus de Ébano, mineiro, meio-campista do Santa Cruz entre 1975 e 1977, campeão pernambucano em 76 e destaque na melhor campanha do clube no Campeonato Brasileiro, em 75. Ele passou por Santos, Grêmio, Fluminense, Bahia e outros, além do Santa Cruz.
Eles tinham medo do Santa Cruz. Os times vinham jogar aqui, no Arruda, e nós sentíamos que eles temiam nossa equipe. Praticamente não perdemos naquela campanha de 75. Tínhamos um time muito bom e realmente acreditávamos que poderíamos ser campeões. Acredito que, se tivéssemos ganho do Cruzeiro, ganharíamos também do Internacional na final.
Foram muitas partidas boas, marcantes. Foi um grande campeonato. Me lembro de um jogo com o Fluminense. Teve uma jogada que dominei a bola, coloquei nas "saias" do volante lá e saí jogando. Quando olhei para trás, o Rivelino estava dando bronca nos caras: "Eu falei, avisei para vocês: tem que marcar esse aí". O Rivelino disse isso. Imagina você ouvir isso do Rivelino... traz uma afirmação.
Aquele campeonato foi muito bom. Eu digo que, no Santa Cruz, tive grandes alegrias e uma grande tristeza. Alegria com a campanha de 1975, com a ajuda que demos para construir a história do clube. Mas também com a tristeza de ter, praticamente, encerrado minha carreira aqui, por conta de uma lesão no joelho, em um jogo com o Flamengo, no Maracanã. Estava prestes a ir para a Seleção Brasileira em um dia e, no outro, quase não conseguia andar. Também fiquei de fora da semifinal contra o Cruzeiro.
Mas o Santa Cruz me marcou e, hoje, me emociono muito com o clube. Dizem que o brasileiro não tem memória, mas o torcedor do Santa Cruz tem. E os detalhes... você encontra um torcedor e ele não só lembra de sua passagem, mas lembra dos detalhes, de cada jogada... isso mexe muito comigo. E quanto tempo faz? Quase 40 anos! Já ouvi de alguns torcedores que eles viraram tricolores por causa do nosso time, por causa de 1975, porque os pais deles contaram as histórias... não tem como descrever o sentimento diante disto.
Comparo a torcida do Santa Cruz com a do Corinthians. Em termos de fidelidade. Um clube que coloca 40, 50 mil em uma Série D... a diferença é que, para mim, a torcida do Corinthians tem uma relação de amor e ódio com o clube. A do Santa Cruz, nem tanto. Aqui esse amor é mais presente, mais constante.
Pio, paulista, ponta-esquerda do Santa Cruz entre 1974 e 1978, campeão pernambucano em 76 e destaque na melhor campanha do clube no Campeonato Brasileiro, em 75. Ele passou por Palmeiras, Ferroviária/SP e outros, além do Santa Cruz.
Sempre fui considerado como o atleta esforçado, tanto pela torcida como pelos jornais da época. E acredito que a condição física, realmente, sempre foi uma das minhas principais características. Não marcava muitos gols, mas creio que eu era importante para o time. O reconhecimento veio depois e continua até agora. E isso foi em todos os times que passei. No Palmeiras, aonde fui campeão brasileiro três vezes, foi a mesma coisa.
No Santa Cruz, eu, o Givanildo (Oliveira) e o Carlos Alberto defendíamos com muita força e não tinha ponta-direita ou ala que se criava comigo. Nos jogos em que eu não estava tão bem tecnicamente, compensava correndo o campo todo e me dedicando na marcação. Você sabe que eu também gostava de bater faltas. Esta era outra grande característica minha.
Fiz poucos gols naquela campanha de 75. Uns três ou quatro. Sempre dei mais assistências do que marquei. Mas só fiz gol importante. Me lembro bastante da partida contra o Palmeiras, em que ganhamos por 3x2, quando fiz um gol de falta aos 45 do segundo tempo. O primeiro tinha sido do Lula Pereira, depois que cobrei falta e o (Emerson) Leão espalmou. Contra o Internacional, no Arruda, a história foi parecida e também marquei o gol da vitória.
Em 1976, fui bi-super campeão, joguei as partidas finais machucado, dei duas assistências. E o Santa Cruz é o único tri-super de Pernambuco. São boas memórias. Sou do interior de São Paulo e, lá, todos torcem para dois times: o grande da capital e o time da cidade. No meu caso, tenho três times de coração. Ferroviária, Palmeiras e Santa Cruz.
Estivemos em Itu, na partida contra o Mogi Mirim, e ficamos abismados com a torcida do Santa Cruz, com a emoção dos torcedores. De repente, um tricolor nos reconheceu. Aí um saiu falando para o outro: "olha o Pio, olha o Mazinho". Tiramos um monte de fotos e, olha, é sensacional. Torcida ganha jogo e o Santa Cruz tem um torcedor que tem uma característica de abraçar o time.
Joãozinho, sergipano, ponta-esquerda do Santa Cruz entre 1977 e 1980, bicampeão pernambucano e destaque da equipe nas conquistas estaduais, em 78 e 79. Ele passou por Corinthians, Bahia, Confiança e outros, além do Santa Cruz.
O Santa Cruz é um time em que fui muito bem tratado, que fiz grandes amizades. Poder retornar aqui, após tantos anos, me deixa muito feliz. No meu time, era Fumanchu na direita, Nunes como centroavante e eu na esquerda. Estou procurando as imagens daquela época. Formamos um time que fez 100 gols no campeonato estadual, um time que teve os três artilheiros do campeonato. Respeito muito a história e a capacidade do Santa Cruz, mas, dificilmente, o clube conseguirá formar um time melhor do que aquele.
Fiz um pedido a alguns membros da diretoria e a algumas pessoas que trabalham na televisão. Eu queria ver um gol que fiz contra o Internacional. Precisávamos da vitória e o jogo estava 1x1 até praticamente os acréscimos. Fiz uma jogada pela esquerda, tirei do lateral, que era Chico Fraga. Passei por Mauro Galvão, passei pelo goleiro e fiz o gol. Foi uma das maiores emoções que senti e o Santa Cruz que me proporcionou. Precisávamos da vitória e fiz acontecer. foi uma jogada excelente, realmente. Estou atrás destas imagens para eu poder mostrar para os netos, para que eles acreditem (risos).
A torcida do Santa Cruz é de massa, formada destas áreas como Beberibe, Campina do Barreto. Realmente são torcedores bons, que gostam do clube. É até difícil entender como um clube coloca 40 mil pessoas em um estádio disputando uma Série D. Era uma injustiça ver um clube como este naquela situação. Vou reencontrar o Arruda neste sábado. Na minha época, ainda não tinha sido feita a reforma. Então estou na expectativa de ver o estádio mais uma vez.

Fonte: Site Oficial do Santa Cruz Futebol Clube

Nenhum comentário: