segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Argentino e tricolor!


ARGENTINO E TRICOLOR!

Daniel Leal

MONTEVIDÉU – O português esforçado não titubeia em se fazer de isca para atrair novos clientes até seu restaurante. No Mercado del Puerto, principal pólo gastronômico de Montevidéu, localizado na Ciudad Vieja, bairro de tradicionais ruas uruguaias, ser um bom garçom vai muito além de saber servir bem. Raul Gutierrez sabe disso como poucos. Esperto, logo tratou de aprender a língua dos principais turistas da região – os brasileiros são como formiga por lá. Era a ponte que faltava para ele chegar ao Recife sem nunca ter cruzado às fronteiras do Brasil. E, de longe, tornar-se o torcedor do Santa Cruz mais fanático que o Arruda jamais teve o prazer de ter por perto.
Desinibido, Raul se posicionada em frente ao restaurante. E começa a “vender seu peixe”. O turista passa e ele grita “Brasileiro!?”. É o canal para a pergunta seguinte: “De onde são?”. Se a resposta for Recife, a ação é imediata: “Torcedor da Cobra Coral?”, questiona prontamente fazendo o símbolo do “T” tricolor com os braços. Logo vai apresentando a bandeira do Mais Querido e as camisas que têm em mãos. Apresenta todas com orgulho. A prosa sobre futebol, a partir de então, é um convite para ir à mesa beber o típico “medio y medio”, uma mistura de espumante com vinho branco, e comer o famoso “ojo de bife”, uma carne vermelha.

ARGENTINO-URUGUAIO

Nascido em Buenos Aires, Raul Gutierrez chegou à capital uruguaia aos 10 anos. Hoje, aos 36 tem duas paixões: o Santa Cruz e o Peñarol. E a escolha pelo Tricolor não foi somente um marketing barato. “Comecei a acompanhar o Santa Cruz com os tripulantes da Gol (companhia aérea), que vinham aqui toda semana e são do Recife. Conheci vários clubes do Nordeste… O Ceará, o Bahia, o Sport… Mas o Santa Cruz foi especial. Como pode um time na Terceira Divisão, depois na Quarta Divisão botar 80 mil pessoas em um estádio? Isso é impensável aqui no Uruguai. Fiquei impressionado e me apaixonei pelo Arruda, pelo time, pela torcida…”, conta.
Era meados de 2008 quando Raul passou a incorporar o Santa Cruz como clube do coração. Mas, e como acompanhar tudo a 3,7 mil quilômetros de distância? “Vejo tudo pela internet. Quando não consigo ver o jogo, vejo as notícias”, diz, com propriedade. “Foi uma coisa espontânea. Trabalho há oito anos aqui com o público que é maioritariamente brasileiro, então fui gostando”, acrescenta.

RIVALIDADE

Mesmo tão longe do Recife, Raul Gutierrez alimenta a rivalidade com o Sport e o Náutico tal qual estivesse pela capital pernambucana. Sobre o Leão, é direto: “Meu vice”, diz ainda lamentando a saída de Caça-Rato e Dênis Marques do time. E o Náutico? “É um bom time e graças a nós podem falar que ainda são os únicos hexacampeões. Afinal, tiramos o hexa do Sport duas vezes”, diz com orgulho, emendando com o desejo que é adiado ano após anos: “Um dia vou ao Arruda e vou a um jogo do Santa Cruz”.

Fonte: Diario de PE, Recife, 13/9/2015

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